Ainda ontem eu me lembrei. Estava esquecido em algum canto, mas meu inconsciente sabia que não deveria me privar pra sempre da doçura daquelas tardes. Tinha uma mulher. E essa, era minha mãe. Vez ou outra, me deixava indignada por esconder minhas balas na geladeira. Só que quando seus dedos escorregavam pelas cordas daquele violão, soando uma melodia calma, eu me esquecia de chorar, esquecia de tudo. Nessa hora, ela passava de mulher a anjo e encantava a sua princesinha da forma mais bonita que se podia haver.
Não lembro ao certo qual a época do ano, talvez fosse setembro. Eram tardes frescas, de mato silencioso e o sol se punha bonito, deixando que eu visse desenhos que as sombras dos eucaliptos lá fora formavam nas paredes. Coisa boa, era ouvir a voz doce que se encaixava perfeitamente no som das cordas do violão. Ficávamos ali, sentadas no chão de azulejos em tom rosê sobre as almofadas grandes, as quais as capas, minha mãe mesmo pintava. E na maciez da voz e das almofadas eu dormia. Sem balas, sem lágrimas e feliz em cultivar aqueles momentos que eu não sabia que se tornariam apenas lembranças. Por sorte, ainda posso ouví-la cantando:
Peixe quer mar
Peixe quer mar, ave voar
Eu quero amar o amor que existe em mim
Mas eu amo e gosto dele assim
Assim, assim
Tal com é, vadio sem fé
Indiferente e mal para mim
Mas eu amo e gosto dele assim
Assim, assim
Ele é moreno espetacular
Tem olhos verdes que nem o mar
Mas eu amo e gosto dele assim
Assim, assim
Quando ele se vai tudo é desprazer
Tem-se a impressão
Que se vais morrer
Por isso eu amo e gosto dele assim
Assim, Assim
Meu Deus! Achei que esta canção só estava na minha cabeça. Achei que eu tinha inventado ela quando era criança. Porque eu falo dela e nunca ninguém ouviu falar. Bom saber que outra pessoa conhece.
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