Como num passe de mágicas por algum tempo eu tive a inesquecível sensação de transbordar daquela doce loucura. A ansiedade exalava por todos os poros, tanto que poderia ser notada num simples morder de lábios. Um século passaria mais rápido do que aqueles minutos em que tudo era tão decisivo: ou eu estaria mais próxima, ou mais distante do que nunca, daqueles sonhos; até que meus olhos, meio incertos, fitaram o que eu tanto esperei - uma expressão sutil que me prendeu a atenção- minhas pupilas latejavam, o corpo era quente e as mãos suadas, apesar do sereno frio que caía sobre mim.
Naquele momento eu pude atravessar as núvens no tempo de um abraço, nove ou dez segundos foram o suficientes. Em poucos instantes eu viveria algo que sonhava acordada todos os dias, que me arrancava doloridas lágrimas por ser imensamente longíquo.
Então, naquela noite, eu vivi todo aquele encanto e pudera desfrutar do mais puro delírio dos olhos. Tudo brilhava muito e parecia que a vida começava ali. E se terminasse ali, também não seria surpresa.
A garotinha interiorana tinha ficado pra trás, dando lugar a uma mulher confiante que era a "atração da noite", paparicada por todos aqueles que ela idolatrava no silêncio das noites vazias.
Voltemos. Como todas as mocinhas, eu também imaginava um príncipe, que não sabia quem era nem como viria, mas sabia que, hora ou outra, ele tinha que chegar, nem que fosse só de passagem, pra deixar uma marca. Reles ou não.
De repente, repentino mesmo, sem nenhuma pista, eu tinha ao meu lado o tal príncipe. Só pra mim. Ele tinha um porte atraente e os cabelos esvoaçantes como um dia eu imaginei. Olhava profundo nos meu olhos, me fazia rir e me chamava inúmeras vezes de linda, mesmo eu estando com cara amarrotada, mas que ainda sim não conseguia esconder a satisfação de estar ali.
Em sinceridade, toda mulher deveria encontrar, ou mesmo cruzar, com um homem que lhe beijasse a testa e a mostrasse a todos os seu amigos. Eu, pelo menos, pude experimentar essa suavidade misturada com malícia. Foram horas de puro êxtase. Que vão ser lembradas por toda a vida.
Meu olhar inquieto nao perdera nada: nem um olhar, um riso, um movimento, pois sabia que se meu coração parasse naquele momento eu estaria realizada com tudo aquilo que meus olhos puderam captar. Foi a primeira vez em que eu estava em um lugar sem desejar estar em nenhum outro no mundo. Só queria esse lugar, essas pessoas. Queria apenas ele... Queria pra sempre.
Num abraço forte eu pude ouvir dois corações batendo. Estava protegida dos meus medos e monstros interiores. E dentre todas as palavras do mundo eu não pude achar uma, à altura de descrever aquele momento. Um silêncio me bastou. Equanto isso eu sentia um afago morno nos cabelos, que continuaria por um tempo, até os lábios dele, sujos com meu batom vermelho, começarem a se mover, quebrando levemente o silêncio com um sussurro dizendo-me : você é tudo que eu esperei, é perfeita! Meus cabelos voltaram a sentir o afago morno... Aaahh, eu passaria uma eterninadade naquela doce renúncia, assim eu ficaria tranquila ao saber que vez a pós vez, ele estaria lá para mim. Que eu seria inteiramente dele.
Bem, talvez eu nunca sentirei aqueles lábios, pode ser que eu nunca mais volte a vê-lo, mas enquanto eu fechar os olhos e recordar, a cena vai sempre se repetir acompanhada do coração desparado, vez por vez.
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